Blog do Bruno Camurati

Palavras despretensiosas de um músico sincero

Dentro de mim mora uma canção

December14

Este é o título do livro escrito por Augusto Cézar, da banda DOM. É uma obra belíssima, que não só conta a trajetória de um menino que nasceu com uma deficiência física e teve que lidar com a diferença desde a infância, mas também fala muito ao músico católico sobre o serviço a Deus através da música.

Através das páginas do livro, podemos teste munhar o encontro com Deus, as graças e dificuldades de servir na missa, os desafios que o Senhor nos coloca no caminho. Acompanhamos também um pouco da história da banda DOM, desde seu início, de como a banda foi evoluindo, estruturando-se, acertando as arestas…  Sabemos ali como canções foram feitas, até como o próprio nome da banda foi criado. Testemunhamos as maravilhas do casamento, o apoio da família e dos amigos, e percebemos que a vida do Augusto passa por coisas iguais às nossas, e ele a percorre com grande fé e confiança dócil a Deus.

O que pra mim a princípio seria uma biografia simples sobre um artista, acabou se mostrando como uma grande lição de vida para qualquer músico católico que sonhe em ter seu ministério, que parta para a evangelização na paróquia ou através de CDs e shows. Augusto nos ensina a vigiar, orar e estudar sempre e mais nossa fé e nossos instrumentos, e o faz da forma mais sincera, mostrando suas fragilidades, erros e acertos. Algo que todos nós temos, e que por isso mesmo tocam tão profundo em nosso coração.

Se você é músico católico,  faz algum tipo de serviço, ou quer simplesmente quer ler um bom livro sobre um bom e fiel servo de Deus que venceu seus próprios obstáculos, não deixe de ler!

COMPRE AQUI, ou se você for do Rio de Janeiro, peça direto por email ao Augusto (tiogutao@gmail.com).

Notícias do estúdio #4 - Escolha das músicas

September9

musicas

Escolher músicas pra um CD não é tarefa fácil. Ainda mais sendo o primeiro solo. Dá vontade de colocar tudo, de mostrar todas as canções, fazer coisas mirabolantes… Por mim o CD teria umas 20 músicas. No entanto, a racionalidade das questões me fizeram reduzir.

Realmente CDs longos são chatos, e tendem a ser repetitivos. O conceito de deixar gosto de ‘quero mais’ me agrada também. Fora isso há o fator finaceiro, que influencia muito as decisões. Sendo assim, fechei em 12 músicas e serão 12 músicas. Ponto final.

Agora, quais? Quais dos filhos vão ficar de fora? Para decidir, só com muita oração, discernimento e raciocínio. Sim, acredito que só com esta soma de fatores alguma decisão pode ser tomada. Como digo numa música (que ficou de fora), “de braços dados com a razão e a fé eu vou me equilibrando pra ficar de pé”.

Os critérios racionais e espirituais seguiram esta linha:

  • Primeiro, as músicas que achamos realmente ótimas, e que têm uma mensagem forte e verdadeira.
  • Em segundo lugar, harmonizar a temática do CD, equilibrando os sentimentos e ritmos
  • Depois, analisar quais músicas são esperadas pelo público, ou já são conhecidas e trarão uma identificação mais imediata
  • Não repetir muito temas semelhantes
  • Principalmente, músicas que me dissessem alguma coisa. Que falassem de verdade ao meu coração, como expressão do que sinto, senti ou sentirei, e que o público poderá se identificar em maior ou menor grau

Foi mais ou menos assim… No final das contas ficamos com as 12. Algumas eu a princípio duvidei, e agora agradeço a insistência do Duda e Thiago. Outras eu tive que bater o pé, e acabei convencendo. Outras são unânimes. Segue a lista (não existe ordem definida ainda).

  1. Feliz
  2. Oração simples
  3. Leva um tempo
  4. Lembra
  5. Canção de Pedro
  6. Maltrapilho (parceria com Maninho)
  7. Se fosse mais fácil
  8. Quanto tempo você tem?
  9. Homem invisível (parceria com Grecco)
  10. Fiat (faça-se)
  11. De filho para mãe
  12. Frente a frente (parceria com Grecco)

O tema geral deste CD é a autenticidade de ser cristão. Busquei concentrar as músicas que falassem de forma sincera com Deus ou sobre Deus.  Seja nos momentos de louvor, de aceitação da missão, de oração pessoal ou mesmo de dúvida na fé, todas as músicas falam de uma forma muito humana e pessoal sobre minha relação com Deus.

Nunca pensei muito em fazer parcerias, e elas aconteceram da forma mais natural possível. Além da música já conhecida em parceria com o Maninho, tive um outro parceiro muito frutífero e interessante: Rodrigo Grecco. Este gaúcho é uma máquina de boas músicas, leva esse ofício de forma muito cuidadosa e produtiva. As duas músicas que fizemos juntos na verdade eu comecei, e coloquei em suas mãos para que desse o acabamento e completasse com ideias. Em ambas as canções o resultado foi além do esperado, me surpreendendo demais com sua poesia e suas lindas imagens.

Sei que muitos de vocês queriam Nada quero mais. Fiquei entre esta e Feliz (que voces ainda não conhecem), porque tanto a música quanto a letra são semelhantes na temática e estilo. Ficou a mais forte. Sei também que Como não te amar foi citada, e imagino que eu possa gravar estas músicas no futuro, ou deixar como lado B.

Em breve coloco aqui as letras de cada música. Acho que o conjunto ficou bem legal. Estou bem feliz.

E vocês? O que acham?

Saudades

July23

179

Chegava em casa, algumas kombis depois… Andava a pequena rua cheia de amendoeiras cantando, às vezes  correndo, outras caminhando de olhos fechados pra ver se mantinha a linha reta… se era de madrugada, poderia até dançar. Cantando, sempre. Enquanto caminhava, lembrava dos tempos ainda mais antigos, quando trilhava com a bicicleta as calçadas cheias de obstáculos, ou subia no alto da goiabeira só pra pular em seguida. Caminhando, via também a linha apagada que um dia delimitou tantos jogos de queimado, os cantos escuros que serviam de escondeirijo no pique-esconde, e até os mascotes de Copas passadas em pinturas já desgastadas no asfalto.

Chegava em casa, abrindo o portão que nunca teve fechadura, só cadeado. As cachorras levantavam uma orelha, subiam um pouco a cabeça pra ver quem tinha chegado. Beijava o pai na testa, ele que dormia no sofá com o controle na mão — jurava estar acordado — e relutava subir pra dormir de verdade De vez em quando o pai falava algo e sorria percebendo a chegada, e no segundo depois voltava a dormir, cansado de mais um dia de trabalho pela família. Beijava a mãe, que passava as roupas enquanto via TV e esperava o filho ocupado chegar. Sentavam-se os dois, mãe e filho, na cozinha e ligava o microondas para requentar o jantar — bife bem temperado, um risoto, vagens ou feijão.Ali na mesa a mãe perguntava sobre o dia, os projetos. Se tinha comido direito, e como andavam os ensaios, quais são as músicas do show… Nem sempre tinha todas as respostas, caladas pela preguiça.

Subia os degraus pro quarto, a mochila ficava na mesa, o tênis embaixo da escada, ou deixado junto do sofá. Computador ligado, algumas coisas pra fazer, a noite ainda demoraria a terminar. No entanto, não fechava os olhos antes que o pai ou a mãe abrissem a porta de leve, só pra dar boa noite ou somente olhar se estava ali, já dormindo.

Ouvia o barulho do chuveiro no meio do sono, era o pai indo trabalhar. Despertador tocando, tocando novamente, e outra vez. Chuveiro, roupas, torradas manteiga e mel, um copo de iogurte. A mãe ainda tentava extrair mais informações, mas a razão do silêncio era agora o mau-humor matinal. Carona até o ponto, um beijo, algum dinheiro pra passagem, e outro dia começava.

Faz menos de um ano que esta cena não acontece muito mais, e eu estou com uma saudade enorme…

Pequenos prazeres

April17

Ipanema - 21:00h

A semana foi estressante, e a ironia reside no fato de que seria uma semana de férias, que em favor da quantidade de trabalho na empresa teve de ser prudentemente adiada. Meu rosto cansado e minhas horas de sono diziam que a sexta-feira com feriado não poderia vir em melhor hora.

Passo despretensiosamente no mercado, e penso que a noite sempre fica melhor com chocolate. Afinal, ainda faltam alguns episódios de Brothers and Sisters, e eu me conheço, faminto da madrugada. Na minha cesta passam um Sucrilhos de mel, uma caixa cara e linda de framboesas… É o flerte com a gula, eu sei. No entanto, a razão volta tudo às prateleiras. Ainda tentando imaginar algo que precisasse do mercado (além do chocolate), me deparo com um conjunto de caixas de vinhos em promoção. Muito barato, e de fato não temos nenuma garrafa de vinho em casa, só algumas Absolut que parecem servir mais como um dos poucos enfeites num apartamento recém alugado.

00h15

Faltam alguns episódios pra assistir, e a fome bate. O silêncio da madrugada só é interrompido por alguns jovens barulhentos pegando o elevador no andar de baixo em direção à night. Como é relaxante a sensação de que você pode descansar por algumas horas, e ter dias pela frente cheios de compromissos gostosos, familiares e amigos. Como se acabasse de percorrer uma avenida com um piano nas costas, o alívio e a sensação de dever cumprido tomam lugar. E enfim a mente pensa numa forma de recompensar-me por um belo trabalho.

O chocolate se junta à manteiga sem sal guardada de receitas passadas, somando com os ovos recém comprados, o açúcar e a farinha de trigo que só eu pareço lembrar que consta da dispensa. A lembrança encontra a receita de petit-gateau de chocolate – a primeira que fiz – e o prazer de preparar uma sobremesa no calar da noite é o suficiente para pré-aquecer o forno. Chocolate derretido com a manteiga, ovos e gemas sem claras, peneira transpassada pelos ingredientes secos, tudo se mistura na madrugada. A pretensão adiciona um tanto de café, e umas pitadas de canela, e os dedos untam com manteiga e Nescau o potinho verde – verde como quase tudo na pequena cozinha.

00h55

O tempo da mágica no forno é o mesmo da ideia de que nunca um vinho pareceu tão predestinado. A garrafa lá, gelada, a taça providencial e o tabuleiro saído do forno revelam o ritual que tomaria lugar no quarto. O silêncio reverenciava a delícia do pequeno bolo que derretia por dentro de si mesmo, e o vinho gelado tornava tudo perfeito.

Recosto na cadeira com a sensação de recompensa. Vejo como são preciosos estes pequenos prazeres solitários, calados e suaves. Penso como seria interessante tirar uma foto deste momento, e em seguida percebo que preciso exibir meu auto-presente neste blog já empoeirado. Começo o texto com um local e um horário, e subitamente percebo como as palavras são tão bonitas quanto o próprio sentimento.

O arco se completa com esta crônica imprevista, rara e revigorante, que despertou o escritor iniciante que nem lembrava que existia no meio de tantos Brunos morando num espaço tão pequeno. E o ponto final que agora verão será seguido, se me permitem, por uma derradeira taça de vinho antes do fim desta feliz noite.

pequenos-prazeres

E você pensava que o petit-gateau esperaria pela foto? De jeito nenhum!

…cegueira

March14

Eu não sou lá muito expert em leitura pesada. Sempre gostei de ler, desde pequeno, mas não consigo me prender a livros mais difíceis, talvez pela minha natureza hiperativa ou dispersiva, enfim. Meu negócio eram os policiais, Agatha Christie e livros fáceis de ler.

Portanto, tive um certo preconceito com o Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. “Ah, não vou gostar… não vou conseguir” eram as coisas que pensava. Podem me criticar, era pura burrice minha mesmo, lerdeza intelectual.

Soube que o Fernando Meirelles estava a filmar uma adaptação deste livro, e até falei aqui que ele tinha um blog sobre o projeto, e me interessei muito. Amo cinema, gosto muito do pouco que Meirelles já fez (Cidade de Deus, O jardineiro fiel), e com um elenco que incluía Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael Garcia Bernal e Danny Glover não poderia resultar em tragédia. A trama me interessava muito. Pensei, então: “vou ler”. Read the rest of this entry »