Saudades

Chegava em casa, algumas kombis depois… Andava a pequena rua cheia de amendoeiras cantando, às vezes correndo, outras caminhando de olhos fechados pra ver se mantinha a linha reta… se era de madrugada, poderia até dançar. Cantando, sempre. Enquanto caminhava, lembrava dos tempos ainda mais antigos, quando trilhava com a bicicleta as calçadas cheias de obstáculos, ou subia no alto da goiabeira só pra pular em seguida. Caminhando, via também a linha apagada que um dia delimitou tantos jogos de queimado, os cantos escuros que serviam de escondeirijo no pique-esconde, e até os mascotes de Copas passadas em pinturas já desgastadas no asfalto.
Chegava em casa, abrindo o portão que nunca teve fechadura, só cadeado. As cachorras levantavam uma orelha, subiam um pouco a cabeça pra ver quem tinha chegado. Beijava o pai na testa, ele que dormia no sofá com o controle na mão — jurava estar acordado — e relutava subir pra dormir de verdade De vez em quando o pai falava algo e sorria percebendo a chegada, e no segundo depois voltava a dormir, cansado de mais um dia de trabalho pela família. Beijava a mãe, que passava as roupas enquanto via TV e esperava o filho ocupado chegar. Sentavam-se os dois, mãe e filho, na cozinha e ligava o microondas para requentar o jantar — bife bem temperado, um risoto, vagens ou feijão.Ali na mesa a mãe perguntava sobre o dia, os projetos. Se tinha comido direito, e como andavam os ensaios, quais são as músicas do show… Nem sempre tinha todas as respostas, caladas pela preguiça.
Subia os degraus pro quarto, a mochila ficava na mesa, o tênis embaixo da escada, ou deixado junto do sofá. Computador ligado, algumas coisas pra fazer, a noite ainda demoraria a terminar. No entanto, não fechava os olhos antes que o pai ou a mãe abrissem a porta de leve, só pra dar boa noite ou somente olhar se estava ali, já dormindo.
Ouvia o barulho do chuveiro no meio do sono, era o pai indo trabalhar. Despertador tocando, tocando novamente, e outra vez. Chuveiro, roupas, torradas manteiga e mel, um copo de iogurte. A mãe ainda tentava extrair mais informações, mas a razão do silêncio era agora o mau-humor matinal. Carona até o ponto, um beijo, algum dinheiro pra passagem, e outro dia começava.
Faz menos de um ano que esta cena não acontece muito mais, e eu estou com uma saudade enorme…




