January16

Não me lembro de nenhuma peça que nos 10 minutos iniciais eu já queria ver novamente. Ou alguma que eu tenha saído de boca aberta, quase não acreditando no fantástico espetáculo que acabava de ver. Eu sei que soa bastante exagerado, mas é verdade. Não me lembro de ter acontecido isso antes da noite de ontem, quando assisti a Clandestinos, de João Falcão, no Teatro Glória.
Depois de uma longa seleção com atores do Brasil inteiro que contaram suas histórias da batalha pela fama, João Falcão criou este espetáculo a partir da experiência de seus candidatos. A peça tem como tema a escalada pelo sucesso dos atores, seja para entrar na Malhação ou montar uma peça “pra pouca gente ver”. Em Clandestinos, um autor começa a escrever uma série de TV, e de sua cabeça saem os diversos aspirantes à fama.
Mais irônico ainda foi assistir a peça ao lado da Luana Piovani (sim, do meu lado mesmo, morram de inveja!) e ouvir do palco o texto de uma menina recém-chegada do interior, que veio ao Rio “porque aqui todo mundo conhece da vida de todo mundo… tudo o que você faz aparece nas revistas… é lindo”.
Vemos personagens muito bem construídos por atores talentosíssimos. A gordinha que quer deixar de ser coadjuvante, a atriz que trabalha de garçonete enquanto tenta um papel, o modelo-ator que precisa se livrar do passado das passarelas pra fugir do esteriótipo, e muitos outros… A nossa sensação é a de conhecer intimamente aquelas figuras, que fazem parte do cenário carioca. Além disso, as citações sobre o mundo da TV, do cinema e das celebridades são constantes e sempre com um fundo crítico. E o humor é escrachado, ácido e muito presente. Me acabei de rir.
Mas melhor que o humor é o fator metalinguístico que Clandestinos apresenta, quando comenta e critica os próprios personagens e a forma como são criados. “Sou a gordinha, sou o alívio cômico do espetáculo”, ou “como você quer fazer uma peça sobre pesosas que sonham em ser artista sem nenhum viado?”. Texto inteligentíssimo, como não podia deixar de ser com João Falcão.
Como é de costume nos espetáculos de João, os atores tocam e cantam. Instrumentos como a rabeca, o piano, flauta e sax compõem uma trilha orgânica e natural de dar inveja. O cenário é o próprio teatro, com os muros de fundo rabiscados de giz com trechos da peça e ilustrações, e até podemos ver os camarins ao fim do palco.
Saí com um sentimento misto de empolgação, encanto, pequena inveja e sede de mais. Luana Piovani deve ter saído com a sensação de quem acaba de ser ver no espelho. Quero voltar, e quem quiser ir assistir me chame que eu volto. O ingresso é R$ 20 reais, uma pechincha pro teatro atual no Rio. E a peça vale muito mais que isso. Principalmente, vale a sua visita.
CLANDESTINOS
Texto e Direção: João Falcão.
Local: Teatro Glória
Preço:R$ 20,00.
Em cartaz até 15 de fevereiro de 2009.
Horários: Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h.
UPDATE:
Local: Teatro das Artes
Preço(s): R$ 50,00; R$ 25,00 (meia); $15,00 ( para jovens até 21 anos).
Data: 12 de março a 26 de abril de 2009.
Horário: Quinta a sábado, 19h30; domingo 19h.
http://www.clandestinos.art.br